O MISTÉRIO DAS GRUTAS E O TEMPO

A formação das cavernas dos Municípios de Seabra, Palmeiras e Iraquara, região onde se concentra a grande maioria das grutas estudadas no Estado da Bahia, data da era do Proterozóico Superior (900 - 700 milhões de anos) e do Proterozóico Médio (entre 1,7 e 1 bilhão de anos) segundo datações, utilizando métodos isotópicos.

Gruta da PratinhaGruta da Pratinha

Todas essas cavernas, com exceção daquelas de arenitos, originaram-se da lenta percolação de águas levemente ácidas que, penetrando em planos de fraqueza dissolveram o carbonato de cálcio (CaCO3) dos calcários, abrindo passagens.
A água, que se infiltra na superfície, penetra no solo e vai dissolvendo a rocha.
Ao encontrar os espaços das galerias subterrâneas, o carbonato de cálcio, dissolvido na água, sofre um processo de cristalização.
Inicia-se, assim, a formação das estalactites(1) e das estalagmites (2), muitas vezes formando espeleotemas (3).

O interesse crescente de pesquisadores em espeleologia, na região, deve-se ao grande número de grutas existentes na Chapada Diamantina ainda sem conhecer, catalogar ou explorar, adequadamente.

No século passado, pioneiros como Peter Lund e o alemão Ricardo Kroner descobriram o enorme potencial espeleológico brasileiro.
Na Bahia,  encontra-se o maior sistema hidrológico subterrâneo identificado no País e talvez no mundo.
Existem mais de 130 grutas mapeadas e cadastradas só nos municípios de Seabra, Palmeiras e Iraquara.
Segundo algumas estimativas, aquela região contém, provavelmente, a maior densidade de galerias por quilômetro quadrado, e o maior potencial brasileiro, tanto em termos de quantidade quanto de extensão de cavernas, sendo que a distancia entre elas alcançaria, no máximo, 500 metros.

As cavernas formadas em arenitos, do Grupo Chapada Diamantina, estão entre as mais espetaculares e raras do mundo, a exemplo da Gruta do Lapão, no Município de Lençóis, que tem mais de 1 km de extensão.

Dentre as grutas existentes com formação calcária, destacam-se, como as mais extensas, a Lapa Doce ll, com 9.800m; a Gruta da Torrinha, com 6.500m; a Gruta do Ioiô e a Gruta do Impossível, ambas com 4.000m de extensão.

Atualmente, apenas cinco, dentre essas grutas, são exploradas turisticamente: Lapa Doce l, Torrinha, Pratinha, Gruta Azul, e a Gruta do Lapão, em Lençóis, esta última esculpida em arenitos.

Caverna TorrinhaGaleria dos Castelos: Caverna Torrinha

Além da beleza de seus espeleotemas, observam-se, também, importantes painéis arqueológicos, com pinturas rupestres de animais (a exemplo de cachorros, veados, peixes etc.) ou de outras figuras que sugerem formas as mais diversas, como sol, mãos, flechas e desenhos geométricos.
São figuras que se atribuem à obra do homem americano, pré-colombiano, datadas entre 1 mil a 8 mil anos, sendo que os painéis mais antigos, segundo a professora Beltrão, alcançariam 30 mil anos.
Estes painéis, encontrados em mais de 36 grutas dentre as já cadastradas, além dos possíveis materiais líticos, cerâmicos e outros vestígios, que provavelmente existam no subterrâneo, representam um importante registro do homem da pré-história brasileira, constituindo-se num patrimônio natural inestimável, para efeito de estudos e de pesquisa, que enriquecerão, cada vez mais, não só o Brasil mas a humanidade.

Pintura RupestrePintura Rupestre

As cavernas têm muito a nos ensinar e a oferecer. Entretanto, é necessário saber visitá-las, respeitando as suas normas de segurança, afim de que não sejam estas destruídas, invadidas ou depredadas, já que pertencem ao nosso patrimônio natural, sendo portanto, um legado para as gerações futuras.

A preservação dos recursos naturais é de fundamental importância, não só como referencia histórica mas como possibilidade de um comparativo entre tempos geológicos que equivalem a milhões de anos - compreendendo a formação das cavernas, a criação das plantas e dos peixes -, além de possibilitar a comparação da vida média atual do homem contemporâneo, estimada em torno dos setenta anos.

Com isso, fica evidenciada a brevidade da vida humana neste Planeta, comparada ao incomensurável tempo geológico e todo o mistério que o envolve.

A entrada das cavernas representa o limite entre dois mundos distintos, embora complementares: o da luz e o da sombra.

A ausência total de luz é a principal característica dos mundos subterrâneos, o que não impede que você possa, corajosamente, atravessá-los.

" Por não amarmos a terra nem as coisas da terra, mas apenas as aproveitarmos... perdemos o toque da vida... Perdemos o sentido da ternura, essa sensibilidade, essa reação às coisas belas, e será apenas com o reavivar dessa sensibilidade que conseguiremos compreender o que é a verdadeira relação... a relação do nosso interior com a humanidade e o meio ambiente".
J. Krishnamurti 

Poço EncantadoPoço Encantado

(1) Estalactites - precipitado alongado mineral que se forma nos tetos das cavernas ou dos subterrâneos.

(2) Estalagmites - precipitado alongado mineral formado no solo de uma caverna ou subterrãneo e provenientes dos respingos caídos do teto. Toma posição oposta ao estactite.

(3) Espeleotema - formação mineral encontrada no interior da caverna que sugerem figuras de castelos, pianos, santos, asa de morcego, candelabros, animais e uma infinidade de formas. Estima-se que uma estalactite, uma estalagmite, ou mesmo um espeleotema levem de 33 a 100 anos para crescer apenas 1 cm.